13 de Agosto
Hoje foi minha centésima execução. Ao contrário do que eu gostaria (e merecia, diga-se de passagem), ninguém sequer notou. A discrição pode ser, sim, um dos pontos fortes da profissão (não suportaria gente me parando na rua para pedir autógrafo) mas, às vezes, é tanta que chega a ser anti-social. Uma data tão significativa para o trabalho de um sujeito e ninguém se toca! Em outro ramo, os colegas me pagariam uma rodada de chopp, trariam um bolo com cem velinhas, sei lá. Aqui a data passou em branco.
Por falar em data, começo esse diário como singelo presente para mim mesmo e como comemoração possível à minha data especial, e não por ser 13 de agosto, como podem pensar os mais paranóicos. Aliás, nunca entendi por que essa piração toda com agosto. É só um mês. E um mês bem agradável, se for comparar ao calor de fevereiro. Não, não gosto de calor. E não, não é sexta-feira, caso algum engraçadinho queira saber.
Qual é a sensação? Sempre me perguntam. Tento responder com o maior número de detalhes possível, mas ninguém entende. Então adotei a resposta mais curta – é legal.
Bom, é inevitável me gabar um pouquinho pela marca, e modéstia a parte, tenho o direito de estar satisfeito, sou bom no que faço.
Meu centésimo colega foi uma mulher, como os nomes no feminino pressupõem. Dei um presente para ela também, morte instantânea e indolor. Pensando bem, sei lá se é um presente ou não. Eu nunca morri, como vou saber? Sei é que indolor e instantâneo tem a ver com o lugar em que eu prendi a corda e com os ossos que quebraram, mas não vou encher linguíça com detalhes técnicos. Isso é um diário, não um manual de instruções.
Para dar clima de festa, fiz com que a quantidade e o barulho dos ossos partidos da colega fossem maior que o habitual. Ecoou, foi lindo. Fogo de artifício nenhum do mundo teria o mesmo efeito. Talvez eu tenha exagerado um pouco, mas minha euforia é compreensível, não é todo dia que se completam cem execuções.
Estranho, as pessoas acham estranho que eu chame de “colega” o que elas preferem chamar de “vítima” ou “condenado”. Acham tão estranho que eu parei de falar assim na frente dos outros. Mas, estranho por que, se de fato não são nada além de meus colegas? Enganam-se se pensam que a questão aqui é justiça ou vingança. É só trabalho.
E parabéns para mim.